COMO FUNCIONA O FASCISMO? UMA APROXIMAÇÃO DO PENSAMENTO DE JASON STANLEY AO BOLSONARISMO

Por Roberto França

É consenso entre os intelectuais que nunca houve comunismo por essas bandas tropicais. O próprio Lula, que se reconhece como um socialista advindo da classe trabalhadora, disse que teve que ensinar os capitalistas brasileiros a fazerem o capitalismo funcionar, mobilizando o crédito e tornando o Brasil a 6ª economia mundial. Isso é capitalismo ou não!? (https://www.youtube.com/watch?v=bupYyTfN6pE).

Em um mundo cada vez mais conectado (mídias) e fragmentado (tribos), o estranhamento cultural se aprofundou (especialmente nesta década) com as novas dinâmicas migratórias e do medo do terrorismo globalizado. Nesse cenário, o fascismo das elites brasileiras e sua classe média protetora, se territorializou violentamente no Brasil, atingindo os pobres com o reforço da ideologia da competitividade (meritocracia), do patriarcado e do império da lei, se manifestando principalmente na figura de Jair Bolsonaro, que, sem dúvida, sintetiza todo o pensamento da Casa Grande brasileira somado ao pensamento militarista brasileiro, legitimador da República.

Nesse contexto contraditório de globalização-compartimentação, as mídias sociais tornam-se novos recursos para tomada do poder, seja pelo oligopólio midiático, seja por militantes isolados que vislumbram um posto na estrutura política.  Antes da virada desta década, a militância com base nos movimentos sociais e sindicais detinham a hegemonia da comunicação com os trabalhadores, porém, a extrema-direita, conseguindo capturar, via algoritmos das redes, o pensamento médio conservador e o medo em tempos de crise internacional, conseguiu estabelecer a supremacia da comunicação, recrutando um exército de militantes virtuais que disputam, a tapa, a liderança intelectual dos políticos que querem no poder. Desse modo, as ideologias conservadoras se misturam e criam uma nova forma de pensamento reacionário, com capacidade de destruição maior que as formas de fascismo geradoras de guerras no passado. Portanto, esse neoconservadorismo conseguiu conciliar liberalismo econômico e moralismo.

Conservadorismo ou fascismo?

A essas ideologias neoconservadoras vou simplesmente chamar de fascismo. Ora, eu sei que há um debate teórico e epistemológico a respeito do conceito, mas, o governo Bolsonaro tem quase todos os elementos do fascismo de Mussolini e do nazifascismo de Hitler, e vou apontá-los, a título de explanação para este breve ensaio, os elementos apontados por Jason Stanley (STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo? São Paulo: LePM, 2018).

O autor aponta que o fascismo tem as seguintes características: 1) O passado mítico; 2) Propaganda; 3) Anti-intelectualismo; 4) Irrealidade; 5) Hierarquia; 6) Vitimização; 7) Lei e ordem; 8) Ansiedade sexual; 9) Sodoma e Gomorra; 10) Arbeit Macht Frei.

O passado mítico é da família patriarcal com o fito estratégico da edificação hierárquica da história, a partir de um passado glorioso com a subtração das verdades que não convém, ou seja, “enquanto a política fascista fetichiza o passado, nunca é o passado real que é fetichizado”, de modo que as fabulações extingam as agruras da nação (STANLEY, 2018). É o caso dos ultranacionalistas que apoiam Bolsonaro. Não há a possibilidade de uma pessoa identificada com o cosmopolitismo apoiar políticas e/ou regimes de cunho fascista. Portanto, os apoiadores dessa política, têm identificado em um passado tingido de sangue como algo puro, de modo que se apoiam a uma recriação da história da ditadura militar e, outros, ainda mais radicais, apoiarem a volta da monarquia, isto é, o pensamento da “Casa Grande” raiz.

Foto: Facebook Princesa Isabel do Brasil (Brasília)

A base da propaganda fascista, como toda imagem de família, tem que ser pura e sem arranhões e, muito embora os políticos fascistas sejam os mais corruptos, procuram disfarçar-se com uma fantasia heroica da anticorrupção, sendo, de acordo com Stanley, como “uma estratégia marcante da propaganda fascista”. Como uma das metas é colocar um líder heroico e patriarcal, os estados fascistas procuram desestruturar o estado de direito a fim de substitui-lo após sua instabilidade. Os fascistas assumem o poder com um discurso contra a corrupção e, após um judiciário independente não dar a devida resposta, os fascistas acusam o sistema de ser parcial, pelo fato dele não fazer todas as vontades do líder. Para que a justiça seja feita, mobiliza-se energia para detratar o judiciário, substituindo juízes e rebaixando a magistratura independente.

propaganda
Propaganda ilegal em Votuporanga-SP

Toda família que se preza precisa passar incólume, o pai tem que ser o exemplo heteronormativo, a mãe tem que ser mãe (sic) e os filhos tem que ser os melhores na escola para ser bons pais e boas mães. Para que seja possível manter a tradicional família blindada da crítica, e manter-se na centralidade de um sistema feliz, não se pode admitir críticas. Nessa direção, de acordo com Stanley, “na ideologia fascista, há apenas um ponto de vista legítimo: o da nação dominante”, então todo o sistema educacional e cultural deve ser aparelhado e reproduzir a visão fascista. A ausência de contraditório tem o nome de anti-intelectualismo, sendo as Universidades e todo pensamento crítico os principais alvos. Fascistas acreditam que as universidades formam somente para a esquerda, pois um dos papéis dessas instituições é lecionar com base nos direitos humanos. Daí os ataques ao “politicamente correto” e à “ideologia de gênero”, o que os fascistas vem chamando, desde os anos 1980, de “marxismo cultural globalista”. Por fim, de acordo com Stanley, “ao rebaixar as instituições de ensino superior e empobrecer nosso vocabulário comum para discutir políticas, a política fascista reduz o debate a um conflito ideológico. Por meio dessas estratégias, a política fascista degrada os espaços de informação, obliterando a realidade”.

flavio bolsonaro

Com a adesão e crença da população de que os intelectuais só têm função de disseminar ideias que “destroem a nação pura”, o fascismo passa a praticar sistematicamente a irrealidade e a distorção de todos os fatos históricos e científicos, criando teorias da conspiração que impugnem e difamando inimigos declarados, como é o caso do PT, PSOL e PCdoB. Nesse sentido, “a política fascista procura destruir as relações de respeito mútuo entre cidadãos, que são a base de uma democracia”, substituindo pela confiança na figura do líder. Esse líder conduz à verdade e os seus seguidores são atraídos pela crença em um sistema simplesmente baseado na segurança da própria religião, raça, gênero ou nacionalidade. Por outro lado, esses eleitores são ressentidos por verem grupos minoritários, que não compartilham de suas tradições, serem “beneficiados” por políticas de ação afirmativa, isto é, “os bens que vão para eles são representados por políticos demagógicos, num jogo de soma zero, como de tirar os bens de grupos minoritários. Nesse jogo as elites são poupadas das críticas, pois são respeitados pelos seus “méritos pessoais”.

jean - piroca

Para um fascista a igualdade é o que Stanley chama de “o cavalo de troia do liberalismo”, pois o patriarcado e a religião (religar) possuem, como “natural”, a hierarquia, combinando poder e dominância plena. Nesse projeto dado e estabelecido, o fascismo articula sua política com base na perda de status por quem verdadeiramente é parte “inerente da nação”, havendo um grande medo de “reconhecimento igualitário para grupos minoritários odiados”. Os que disseminam a ideia de igualdade são considerados ingênuos ou inimigos da nação. A defesa da hierarquia combina força e coerção moral para não se permitir igualdades de gênero e raça (ou etnias), sendo a “base do mito fascista”.

hierarquia - hitler - usa

Esse comportamento impositivo gera um ardil que é a vitimização. De acordo com Stanley, “no cerne do fascismo está a lealdade à tribo, à identidade étnica, à religião, à tradição ou, em uma palavra, à nação. Mas, em acentuado contraste com uma versão do nacionalismo fascista é um repúdio ao ideal democrático liberal”. Daí, por exemplo, os fascistas falarem que migrantes “tiram empregos” de quem já está no território, porém, trata-se de uma fachada para escamotear o ideal de tribo mítica. Com a evocação de grandes recursos populacionais para o mito tribal, mobilizando estratégias militares para combater um inimigo fantasma.

venezuela

Portanto, o combate faz parte da retórica fascista manifesto na “lei e ordem”, que é, explicitamente, uma forma de aprofundar os cidadãos em duas classes: os membros da tribo (nação) e os outros (aqueles de visão mais liberal nos costumes e os pobres). Esse ponto está explicitado na lei anticrime do Sérgio Moro, que autoriza policiais a matar livremente se se sentirem acuados perante o suposto bandido. Além da amplamente lei higienista de Sérgio Moro, outro ponto é a militarização das escolas, a fim de criar uma ideologia de combate baseado na “lei e ordem”, no sentido da violação dos direitos dos cidadãos a um julgamento justo. Os políticos e as mídias fascistas fazem isso com base no MEDO.

Em meu ponto de vista, cria-se um território fóbico, onde os “cidadãos de bem” estão supostamente desprotegidos, precisando de uma violência maior por parte do estado (em minúsculo). No Brasil, os grupos eleitos para a retórica da violência são os pobres e a população LGBTI. A forma de violência anunciada tem relação com que interpreto de Stanley sobre a ansiedade sexual, pois a masculinidade é sempre reforçada pelos bolsonaristas ao evocar suas teses de vitimização. Assim: “se o demagogo é o pai da nação, então qualquer ameaça à masculinidade patriarcal e à família tradicional enfraquece a visão fascista de força” (SANTLEY, 2018). Portanto, a biopolítica da ansiedade sexual enfraquece a igualdade.

ansiedade sexual

A política fascista rechaça o pluralismo e a tolerância e, quanto mais igual é a tribo, maior a capacidade de controle social. Essa é uma das conexões mais evidentes que Jair Bolsonaro é neonazista. O livro Mein Kampf (Minha Casa) é uma ode ao mundo rural e uma crítica às cidades cosmopolitas.

Os fascistas e derivados (como o nazismo e neonazismo) consideram o campo puro e não corrompido pelo cosmopolitismo, o que Ernesto Araújo, filho de um procurador que deu asilo à nazistas durante a ditadura Geisel, chama de globalismo cultural.

O fato de Araújo e Bolsonaro se alinharem à Israel não invalidam a análise sobre o fascismo, pois as seitas neopentecostais têm, como suprassumo, a cidade de Jerusalém. Nesse sentido, seria fora de ordem retomar o antissemitismo, o que colabora para a confusão e alienação da população que defende o conservadorismo de costumes, tão bem utilizados pelos ultraliberais brasileiros e pelos agentes do grande agronegócio ou, como prefiro chamar, de banda podre do agronegócio. A hegemonia do agronegócio na pauta de exportações, com toda sua mentalidade conservadora aliou a ideologia da violência (ocupações de terras indígenas e combate violento aos sem-terra), o conservadorismo de costumes rurais com a eficiência da agricultura científica competente (“O agro é pop!”).

Esses elementos se coadunam com o que Stanley chama de Sodoma e Gomorra.  De acordo com Stanley, “a política fascista sublinha os danos que uma economia globalizada causa nas áreas rurais, somando a isso um foco nos tradicionais valores rurais de autossuficiência supostamente ameaçados pelo sucesso das cidades liberais, tanto do ponto de vista cultural quanto econômico”.

A cidade cosmopolita, na visão dos fascistas, é lócus dos serviços considerados “leves”. De acordo com Stanley, “‘eles’ podem ser curados da preguiça e do roubo com trabalho duro. É possível que os portões de Auschwitz e Buchenwald exibiam o slogan ARBEIT MATCHT FREI – o trabalho liberta”. O autor continua: “na ideologia nazista, os judeus eram criminosos preguiçosos e corruptos que passavam o tempo planejando roubar o dinheiro de arianos trabalhadores, um trabalho que era facilitado pelo Estado”. Transplantando essa ideologia para o Brasil bolsonarista, os preguiçosos são os pobres e os defensores dos direitos humanos, além dos servidores públicos federais contratados nos governos petistas. O slogan mais pronunciado pelos bolsonaristas é: “acabou a mamata”. Essas pessoas defendem a ideia que para que todos sejam iguais, é necessário que que o estado não atue em favor das minorias, pois, com isso cria-se pessoas desocupadas.

mamata

São essas considerações preliminares que faço ao fascismo, a fim de poder fundamentar as críticas e análises que continuarei fazendo neste espaço.

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